31/05/2016

José Varella (1955 - 2012)

Profissional dos mais reconhecidos no jornalismo político, Varella fotografou para alguns dos principais veículos de imprensa do país, como o Jornal do Brasil, o jornal O Estado de S. Paulo, o Correio Braziliense e a revista IstoÉ. A Agência Senado foi seu último local de trabalho, onde mais uma vez colecionou amigos e admiradores. O editor Nelson Oliveira, companheiro do Varella em diversas coberturas, elaborou um breve relato da trajetória do fotógrafo.

"José Varella nos deixou depois de uma vida de muitas batalhas e uma sofrida guerra contra o câncer. Recusou-se a morrer sem luta, o que foi o último de um dos seus muitos atos de rebeldia.


O primeiro, protagonizou ainda criança, em Natal, quando a família o incumbiu de fazer periodicamente o pagamento ao leiteiro, o que exigia caminhada sob sol causticante. Ao constatar que o filho do entregador de leite mantinha-se tranquilamente à sombra, recusou-se a continuar cumprindo a tarefa. E foi atendido. Já na adolescência, em Brasília, foi preso por participar de manifestação durante o enterro do presidente Juscelino Kubitschek, e prosseguiu sempre com arrojo pela vida afora. Adulto, no entanto, a dedicação extrema ao trabalho em nada lembraria o garoto 'injustiçado'. A altivez permaneceria, mas temperada pela disciplina profissional que o levava invariavelmente a entregar a melhor foto possível às redações para as quais trabalhou, como nos jornais O Estado de S. Paulo e Correio Braziliense e na Agência Senado.

No caso de Varella, o adjetivo ‘intrépido’, um tanto desgastado atualmente, merece uma operação de resgate: como fotógrafo não podia mesmo tremer, mas não tremer era da sua índole, e certamente o habilitou para a profissão que escolheu – e essa não foi simplesmente a de fotógrafo, mas a de repórter fotográfico, atividade que exige destemor e certa dose de agressividade. Além da vontade de registrar a história e dela participar de forma envolvente. Varella era, ele próprio, muito envolvente, especialmente quando contava os casos de grandes e pequenas coberturas jornalísticas. Num dos muitos episódios interessantes em que se envolveu, em 15 de março de 1994, acompanhou de perto o sequestro do cardeal Aloísio Lorscheider, tomado como refém por detentos do Instituto Penal Paulo Sarasarte, em Fortaleza. Foi o único a registrar a libertação do dignitário.

Na cobertura da rotina do poder, algo mais amena que um sequestro, mas igualmente desafiadora, nunca estava desatento. Não fazia fotos. Fazia jornalismo político, ligado nos fatos e personagens, de modo a que as imagens pudessem depois ser apropriadamente casadas ao material produzido pelos repórteres de texto. Em homenagem a esse grande profissional do fotojornalismo, a Agência Senado publica alguns de seus melhores trabalhos registrados na Casa entre março e maio de 2011. Cumprimos assim com a obrigação de colocar para os contemporâneos, e os do futuro que remexam nos arquivos da internet, a memória do nosso colega. Mas estamos tranquilos quanto ao sentimento do próprio Varella sobre sua trilha. Ele sabia que tinha participado da história. E também ajudado a construí-la."
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