02/07/2019

21 Lições da o Século XXI: VERDADE

A obra de Yuval Noah Harari, 21 Lições da o Século XXI, é uma das mais importantes da atualidade. A parte IV do livro trata de um assunto muito importante para os estudantes de Comunicação Social: a Verdade. Por isso, reproduzimos esse trecho irretocável na integra: 

PARTE IV 
Verdade 

Se você se sente impotente e confuso diante da situação global, está no caminho certo. Processos globais são complicados demais para que uma única pessoa os compreenda. Como então saber a verdade sobre o mundo, e não ser vítima de propaganda e desinformação? 

15. Ignorância 
Você sabe menos do que pensa que sabe 

Os capítulos precedentes examinaram alguns dos problemas e desenvolvimentos mais importantes da era atual, desde o exagero midiático em torno da ameaça de terrorismo até a subapreciada ameaça de disrupção tecnológica. Se você ficou com a sensação perturbadora de que é demais, e que você não é capaz de processar tudo isso, você está absolutamente certo. Ninguém é.

Nos séculos recentes, o pensamento liberal depositou uma confiança imensa no indivíduo racional. Ele descrevia indivíduos humanos como agentes racionais independentes, e fez dessas criaturas míticas a base da sociedade moderna. A democracia fundamenta-se na ideia de que o eleitor sabe o que é melhor, o livre mercado capitalista acredita que o cliente tem sempre razão, e a educação liberal ensina os estudantes a pensarem por si mesmos.

No entanto, é um erro depositar tanta confiança no indivíduo racional. Pensadores pós-coloniais e feministas destacaram que esse “indivíduo racional” pode muito bem ser uma fantasia chauvinista ocidental, glorificando a autonomia e o poder de homens brancos de classe alta. Como observado anteriormente, economistas comportamentais e psicólogos evolucionistas demonstraram que a maioria das decisões humanas é baseada em reações emocionais e atalhos heurísticos e não em análise racional, e que, enquanto nossas emoções e nossa heurística talvez fossem adequadas para lidar com a vida na Idade da Pedra, são lamentavelmente inadequadas na Idade do Silício.

Não só a racionalidade, a individualidade também é um mito. Humanos raramente pensam por si mesmos. E sim, pensamos em grupos. Assim como é preciso uma tribo para criar uma criança, é preciso uma tribo para inventar uma ferramenta, resolver um conflito ou curar uma doença. Nenhum indivíduo sabe tudo o que é preciso para construir uma catedral, uma bomba atômica ou uma aeronave. O que deu ao Homo sapiens uma vantagem em relação a todos os outros animais e nos tornou os senhores do planeta não foi nossa racionalidade individual, mas nossa incomparável capacidade de pensar juntos em grandes grupos. 

Indivíduos humanos, constrangedoramente, pouco sabem sobre o mundo, e, à medida que a história avançava, sabiam cada vez menos. Um caçador-coletor na Idade da Pedra sabia como fazer as próprias roupas, como acender uma fogueira, como caçar coelhos e como escapar de leões. Nós pensamos que hoje sabemos muito mais, mas como indivíduos na verdade sabemos muito menos. Baseamo-nos na expertise de outros para quase todas as nossas necessidades. Num experimento humilhante, pediu-se a pessoas que avaliassem o quanto compreendiam como funcionava um zíper comum. A maioria respondeu confiantemente que compreendia muito bem — afinal, usavam zíper o tempo todo. Pediu-se então que descrevessem com o máximo de detalhes possível todas as etapas envolvidas na operação do zíper. A maior parte das pessoas não tinha a menor ideia. 2 Isto é o que Steven Sloman e Philip Fernbach denominaram “a ilusão do conhecimento”. Pensamos que sabemos muito, mesmo quando individualmente sabemos muito pouco, porque tratamos o conhecimento dos outros como se fosse nosso. 

Isso não é necessariamente ruim. Nossa confiança no pensamento de grupo nos fez senhores do mundo, e a ilusão do conhecimento nos permite atravessar a vida sem cairmos em um esforço impossível para compreender tudo por nós mesmos. De uma perspectiva evolutiva, confiar no conhecimento de outros funcionou extremamente bem para o Homo sapiens.

Mas, assim como outros traços humanos que faziam sentido em eras passadas mas causam problemas na era moderna, a ilusão do conhecimento tem suas desvantagens. O mundo está ficando cada vez mais complexo, e as pessoas não se dão conta de quão ignorantes são. Consequentemente, algumas que não sabem quase nada de meteorologia ou biologia propõem assim mesmo políticas concernentes à mudança climática e a plantas geneticamente modificadas, enquanto outras mantêm opiniões muito firmes quanto ao que deveria ser feito no Iraque ou na Ucrânia, sem serem capazes de localizar esses países no mapa. Pessoas raramente contemplam sua ignorância, porque se fecham numa câmara de eco com amigos que pensam como eles e com feeds de notícias que se autoconfirmam, fazendo com que suas crenças sejam constantemente reiteradas e raramente desafiadas.

É improvável que oferecer às pessoas mais informações melhore a situação. Cientistas esperam poder dissipar concepções equivocadas com educação científica, e especialistas esperam influir na opinião pública em questões como o Obamacare ou o aquecimento global apresentando ao público fatos precisos e relatórios de especialistas. Essas esperanças baseiamse numa compreensão equivocada de como os humanos efetivamente pensam. A maior parte de nossas opiniões é formada por pensamento comunitário e não em racionalidade individual, e adotamos essas opiniões por lealdade ao grupo. Bombardear pessoas com fatos e expor sua ignorância individual provavelmente será um tiro pela culatra. A maioria das pessoas não gosta de dados demais, e certamente não gosta de se sentir idiota. Não esteja certo de que pode convencer os que apoiam o Tea Party de que o aquecimento global é um fato apresentando-lhes planilhas e estatísticas.

O poder do pensamento de grupo é tão penetrante que é difícil se livrar dele mesmo quando parece ser bastante arbitrário. Assim, nos Estados Unidos, conservadores de direita tendem a se incomodar muito menos do que progressistas de esquerda com coisas como poluição e espécies ameaçadas de extinção, motivo pelo qual a Louisiana tem regulamentos ambientais muito menos rigorosos do que Massachusetts. Estamos acostumados com essa situação, por isso a achamos natural, mas na realidade ela é bem surpreendente. Poderíamos pensar que os conservadores se importariam muito mais com a conservação da velha ordem ecológica e com a proteção de suas terras, florestas e rios ancestrais. Em contraste, poderíamos esperar que os progressistas estivessem muito mais abertos a mudanças radicais no campo, especialmente se elas visam a acelerar o progresso e melhorar o padrão da vida humana. Contudo, como as posições políticas quanto a essas questões foram estabelecidas por vários acasos históricos, tornou-se uma segunda natureza dos conservadores ignorar preocupações ambientais, enquanto progressistas de esquerda tendem a temer qualquer ruptura da antiga ordem ecológica.

Nem mesmo os cientistas são imunes ao poder do pensamento de grupo. Assim, cientistas que acreditam que fatos podem mudar a opinião pública podem ser vítimas de pensamento de grupo científico. A comunidade científica se baseia na eficácia dos fatos, daí que os que são leais a essa comunidade creem que podem vencer debates públicos despejando dados, apesar de haver muita evidência empírica do contrário.

Da mesma forma, a crença liberal na racionalidade individual pode ser produto de um pensamento de grupo. Em um dos momentos climáticos do filme A vida de Brian, do Monty Python, uma enorme multidão de seguidores esperançosos e ingênuos confunde Brian com o Messias. Brian diz a seus discípulos que “vocês não precisam me seguir, vocês não precisam seguir ninguém! Vocês têm de pensar por si mesmos! Vocês são indivíduos! Todos vocês são diferentes!”. A multidão entusiasmada entoa em uníssono: “Sim! Somos todos diferentes!”. O Monty Python estava parodiando a contracultura ortodoxa da década de 1960, mas a questão ali pode ser a crença no individualismo racional. As democracias modernas estão cheias de multidões gritando em uníssono: “Sim, o eleitor sabe o que é melhor! Sim, o cliente tem sempre razão!”.

O BURACO NEGRO DO PODER 

O problema do pensamento de grupo e da ignorância individual envolve não apenas eleitores e clientes comuns, mas também presidentes e CEOs. Eles podem ter a sua disposição agências de inteligência e muitos conselheiros, mas isso não faz necessariamente com que as coisas fiquem melhores. É muito difícil descobrir a verdade quando você está governando o mundo. Você simplesmente está ocupado demais. A maioria dos líderes políticos e grandes empresários estão eternamente atarefados. Se você quiser se aprofundar em qualquer assunto, vai precisar de muito tempo e, principalmente, do privilégio de poder desperdiçar tempo. Terá de experimentar caminhos improdutivos, explorar becos sem saída, abrir espaço para as dúvidas e o tédio e permitir que pequenas sementes de ideias cresçam lentamente e floresçam. Se você não pode se dar ao luxo de perder tempo, nunca encontrará a verdade. 

Pior ainda, as grandes potências quase sempre distorcem a verdade. Poder diz respeito a mudar a realidade e não a enxergá-la como ela é. Quando você tem em mãos um martelo, tudo parece prego, e quando tem um grande poder nas mãos, tudo parece um convite para se intrometer. Mesmo que de algum modo você supere esse impulso, as pessoas a sua volta nunca se esquecerão do martelo gigante nas suas mãos. Quem quer que fale com você terá sua própria agenda, e por isso você nunca poderá acreditar totalmente no que dizem. Nenhum sultão poderá jamais confiar que seus cortesãos e subalternos estão lhe dizendo a verdade.

Assim, um grande poder atua como um buraco negro que deforma o próprio espaço a sua volta. Quanto mais próximo você estiver, mais distorcido torna-se tudo. Cada palavra ganha um peso extra ao entrar em sua órbita, e cada pessoa que você vê tenta bajular, agradar ou obter alguma coisa de você. Elas sabem que você não pode conceder-lhes mais de um minuto ou dois, e temem dizer algo impróprio ou confuso, por isso acabam por se limitar a lemas vazios ou aos maiores clichês.

Alguns anos atrás fui convidado para um jantar com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Amigos aconselharam-me a não ir, mas não consegui resistir à tentação. Pensei que finalmente ouviria alguns dos grandes segredos que só se divulgam a orelhas importantes atrás de portas fechadas. Que decepção! Havia lá cerca de trinta pessoas, e cada uma delas tentava obter a atenção do Grande Homem, impressioná-lo com sua verve, pedir um favor ou obter alguma coisa dele. Se alguém lá sabia de algum grande segredo, fez um excelente trabalho guardando-o para si mesmo. Dificilmente foi culpa de Netanyahu, na verdade não foi culpa de ninguém. A culpa é da atração gravitacional do poder.

Se você de fato quer a verdade, precisa escapar do buraco negro do poder, e permitir-se desperdiçar muito tempo vagando aqui e ali na periferia. O conhecimento revolucionário raramente chega ao centro, porque o centro está construído sobre um conhecimento já existente. Os guardiões da velha ordem normalmente determinam quem vai chegar aos centros do poder, e tendem a reter no filtro os portadores de perturbadoras ideias não convencionais. É claro que eles filtram também uma incrível quantidade de refugo. Não ser convidado para o Fórum Econômico Mundial em Davos dificilmente é garantia de sabedoria. É por isso que você precisa perder tanto tempo na periferia — ela pode conter algumas brilhantes ideias revolucionárias, mas está cheia de palpites desinformados, modelos desmascarados, dogmas supersticiosos e ridículas teorias conspiratórias

Os líderes ficam presos num dilema. Se permanecerem no centro do poder, terão uma visão extremamente distorcida da vida. Se se aventurarem nas margens, desperdiçarão seu precioso tempo. E o problema só vai ficar pior. Nas próximas décadas o mundo será ainda mais complexo do que é hoje. Consequentemente, indivíduos humanos — sejam peões ou reis — saberão ainda menos sobre as engenhocas tecnológicas, as correntes econômicas e as dinâmicas políticas que dão forma ao mundo. Como observou Sócrates há mais de 2 mil anos, o melhor que podemos fazer nessas condições é reconhecer nossa própria ignorância individual.

Mas e quanto à moralidade e à justiça? Se não somos capazes de compreender o mundo, como podemos esperar saber qual é a diferença entre o certo e o errado, entre a justiça e a injustiça?

16. Justiça 
Nosso senso de justiça pode estar desatualizado 

Como todos os nossos outros sensos, nosso senso de justiça tem antigas raízes evolutivas. A moralidade humana foi moldada no decurso de milhões de anos de evolução, adaptada para lidar com os dilemas sociais e éticos que surgiram na vida de pequenos bandos de caçadores-coletores. Se eu saísse para caçar com você e matasse um veado, e você não pegasse nada, eu deveria compartilhar meu butim com você? Se você fosse colher cogumelos e voltasse com um cesto cheio, o fato de eu ser mais forte que você permite que pegue todos esses cogumelos para mim? E se eu souber que você está tramando me matar, tudo bem se eu agir preventivamente e cortar sua garganta na escuridão da noite? 

À primeira vista, as coisas não mudaram muito desde que deixamos as savanas africanas e fomos para a selva urbana. Poderíamos pensar que as questões que enfrentamos hoje — a guerra civil na Síria, a desigualdade global, o aquecimento global — são só as mesmas antigas questões em grande escala. Mas isso é uma ilusão. O tamanho importa, e do ponto de vista da justiça, como de muitos outros pontos de vista, é difícil dizer que estamos adaptados ao mundo no qual vivemos.]

O problema não é de valores. Sejam seculares ou religiosos, os cidadãos do século XXI têm muitos valores. O problema é implementar esses valores num mundo global complexo. É tudo culpa dos números. O senso de justiça dos nossos ancestrais era estruturado para lidar com dilemas relativos à vida de algumas dezenas de pessoas em poucas dezenas de quilômetros quadrados. Quando tentamos compreender relações entre milhões de pessoas em continentes inteiros, nosso senso moral fica assoberbado.

A justiça exige não apenas um conjunto de valores abstratos, mas também uma compreensão das relações concretas de causa e efeito. Se você coletou cogumelos para alimentar seus filhos e eu tiro de você à força o cesto de cogumelos, o que quer dizer que todo seu esforço foi em vão e seus filhos irão dormir com fome, isso é injusto. É fácil perceber isso, porque é fácil ver as relações de causa e efeito. Infelizmente, uma característica inerente a nosso mundo global moderno é que suas relações causais são muito ramificadas e complexas. Eu posso estar vivendo pacificamente em minha casa, nunca ter levantado um dedo contra ninguém, e ainda assim, de acordo com ativistas da esquerda, ser um conivente de soldados israelenses e colonos na Cisjordânia. De acordo com os socialistas, minha vida confortável baseia-se no labor de crianças em locais de trabalho sombrios e degradados. Os defensores do bem-estar dos animais lembram-me que minha vida está entrelaçada com um dos mais pavorosos crimes na história — a subjugação de bilhões de animais de criação a um regime brutal de exploração.

Posso realmente ser culpado por tudo isso? Não é fácil dizer. Como dependo, para existir, de uma espantosa rede de laços econômicos e políticos, e como as conexões causais globais são tão intricadas, é difícil responder até às mais simples perguntas, como de onde vem meu almoço, quem fez os sapatos que estou calçando e o que o meu fundo de pensão está fazendo com meu dinheiro. 2 

ROUBANDO RIOS 

Um caçador-coletor sabia muito bem de onde vinha seu almoço (ele mesmo o obtinha), quem fazia seus mocassins (dormia a vinte metros dele) e o que estava fazendo seu fundo de pensão. (Estava brincando na lama. Naquela época as pessoas só tinham um fundo de pensão, chamado “filhos”.) Sou muito mais ignorante do que um caçador-coletor. Anos de pesquisa podem revelar que o governo no qual votei está secretamente vendendo armas a um sombrio ditador no outro lado do mundo. Mas, durante o tempo que me leva para descobrir isso, eu poderia estar perdendo descobertas muito mais importantes, como o destino das galinhas cujos ovos eu comi no jantar.

O sistema está estruturado de tal maneira que aqueles que não se esforçam por saber podem permanecer numa feliz ignorância, e os que fazem um esforço vão descobrir que é muito difícil saber a verdade. Como é possível impedir o roubo quando o sistema econômico global está incessantemente roubando, em meu nome e sem meu conhecimento? Não importa se você julga ações por suas consequências (é errado roubar porque isso prejudica as vítimas) ou se acredita em deveres categóricos que devem ser cumpridos independentemente das consequências (roubar é errado porque assim disse Deus). O problema é que se tornou complicado demais ter noção do que estamos de fato fazendo.

O mandamento de não roubar foi formulado numa época na qual roubo significava tomar, com suas próprias mãos, algo que não lhe pertence. Mas hoje roubo remete a cenários completamente diferentes. Suponha que eu invista 10 mil dólares em ações de uma grande empresa petroquímica, que me provê um retorno anual de 5% de meu investimento. A corporação é muito lucrativa, porque não paga por danos colaterais. Ela despeja lixo tóxico num rio próximo sem se importar com os danos para os reservatórios de água da região, para a saúde pública ou para a fauna local. Usa sua riqueza para recrutar uma legião de advogados que a defendem de qualquer exigência de indenização. Conta também com lobistas que bloqueiam toda tentativa de criação de leis mais rigorosas de regulação ambiental.

Podemos acusar a empresa de “roubar um rio”? E quanto a mim, pessoalmente? Eu nunca arrombo a casa ou roubo dinheiro da bolsa de ninguém. Não tenho conhecimento de como essa corporação específica está gerando seus lucros. Mal me recordo que parte de minha carteira está investida nela. Sendo assim, sou culpado por roubo? Como podemos agir moralmente quando não temos como conhecer todos os fatos relevantes?

Pode-se tentar esquivar do problema adotando uma “moralidade de intenções”. O importante é o que eu pretendo, não o que efetivamente faço, ou o resultado do que faço. No entanto, num mundo no qual tudo é interconectado, o supremo imperativo moral torna-se o imperativo de saber. Os maiores crimes na história moderna resultaram não só de ódio ou ganância, mas principalmente de ignorância e indiferença. Encantadoras damas inglesas financiaram o tráfico de escravos no Atlântico comprando ações e títulos na Bolsa de Londres, sem nunca terem posto o pé na África ou no Caribe. Elas depois adoçavam o chá das quatro com cubos de açúcar brancos como a neve, produzidos em plantations infernais — sobre as quais elas nada sabiam

Na Alemanha, no fim da década de 1930, o gerente de um posto de correio local poderia ser um cidadão íntegro cuidando do bem-estar de seus funcionários e ajudando pessoalmente pessoas angustiadas a encontrar seus pacotes desaparecidos. Era sempre o primeiro a chegar ao trabalho e o último a sair, e, mesmo quando havia tempestades de neve, assegurava-se de que a correspondência chegasse no horário. Mas, infelizmente, sua eficiente e hospitaleira agência de correios era uma célula vital no sistema nervoso do Estado nazista. Estava distribuindo propaganda racista, ordens de recrutamento para a Wehrmacht e drásticas instruções para a sede local das SS. Algo está errado quanto às intenções de quem não faz um esforço sincero para saber.

Mas o que pode ser considerado “um esforço sincero para saber”? Deveriam os chefes dos correios em cada país abrir a correspondência que estão entregando e se demitirem ou se revoltarem se descobrirem propaganda do governo? É fácil olhar retrospectivamente para a Alemanha nazista de década de 1930 com absoluta certeza moral — porque sabemos aonde chegou essa corrente de causas e efeitos. Mas, sem a vantagem da visão retrospectiva, a certeza moral pode estar fora de nosso alcance. A verdade amarga é que o mundo ficou complicado demais para nosso cérebro de caçadores-coletores.

A maior parte das injustiças no mundo contemporâneo resulta de vieses estruturais em grande escala, e não de preconceitos individuais, e nosso cérebro de caçadores-coletores não evoluiu a ponto de detectar vieses estruturais. Somos cúmplices de pelo menos alguns desses vieses, e simplesmente não temos tempo nem energia para descobrir todos eles. O processo de escrever este livro me ensinou essa lição, num nível pessoal. Quando discuto questões globais, estou sempre correndo perigo de privilegiar o ponto de vista da elite global em relação ao de vários grupos desfavorecidos. A elite global comanda a conversa, assim é impossível ignorar suas opiniões. Grupos desfavorecidos, em contraste, são rotineiramente silenciados, e assim fica fácil se esquecer deles — não por malícia deliberada, mas por pura ignorância. 

Por exemplo, não sei absolutamente nada sobre as opiniões e os problemas específicos e singulares dos aborígenes da Tasmânia. Na verdade, sei tão pouco sobre eles que num livro anterior presumi que os aborígenes da Tasmânia não existem mais, porque foram todos aniquilados por colonizadores europeus. Na verdade, existem hoje milhares de pessoas vivas cujos ancestrais remontam à população aborígene da Tasmânia, e que enfrentam muitos problemas que lhes são únicos — um dos quais é que sua própria existência é frequentemente negada, até mesmo por estudiosos instruídos. 

Mesmo que você pertença a um grupo desfavorecido, e tenha em primeira mão uma compreensão de seus pontos de vista, isso não significa que você compreende o ponto de vista de todos os outros grupos semelhantes. Pois cada grupo e subgrupo estão diante de diferentes emaranhados de fragilidades, tratamentos desiguais, insultos codificados e discriminação institucional. Um homem afro-americano com trinta anos de idade tem uma experiência de trinta anos do que significa ser um homem afro-americano. Mas não tem experiência do que é ser uma mulher afro-americana, uma cigana búlgara, uma russa cega ou uma lésbica chinesa. 

Enquanto crescia, esse homem afro-americano era repetidamente detido e revistado pela polícia sem motivo aparente — algo pelo qual a lésbica chinesa nunca teve de passar. Em contraste, ter nascido numa família afroamericana numa vizinhança afro-americana significa que ele estava cercado de pessoas como ele, que lhe ensinaram o que precisava saber para poder sobreviver e evoluir como um homem afro-americano. A lésbica chinesa não nasceu numa família lésbica, numa vizinhança lésbica, e talvez não tenha tido ninguém no mundo que lhe desse lições básicas. Daí que crescer como negro em Baltimore dificilmente faz com que seja fácil compreender a luta de crescer como lésbica em Hangzhou.

Em épocas mais antigas isso tinha menos importância, porque você não se sentia responsável pelas dificuldades de gente que vivia do outro lado do mundo. Em geral, fazer um esforço para simpatizar com seus vizinhos menos afortunados já era suficiente. Mas hoje os grandes debates globais sobre coisas como mudança climática e inteligência artificial têm impacto sobre todos — seja na Tasmânia, em Hangzhou ou em Baltimore —, por isso temos de levar em conta todos os pontos de vista. Porém, como fazer isso? Como compreender a rede de relações entre milhares de grupos que se intersectam por todo o mundo? 

MINIMIZAR OU NEGAR? 

Mesmo que realmente queiramos, a maioria de nós não é mais capaz de compreender os grandes problemas reais do mundo. Podem-se compreender as relações entre dois caçadores-coletores, entre vinte deles, ou entre dois clãs vizinhos. Mas as pessoas são mal equipadas para compreender as relações entre vários milhões de sírios, entre 500 milhões de europeus, ou entre todos os grupos e subgrupos do planeta que se intersectam.

Ao tentar entender e julgar dilemas morais nessa escala, as pessoas frequentemente recorrem a um de quatro métodos. O primeiro é minimizar a questão: compreender a guerra civil síria como se estivesse ocorrendo entre dois caçadores-coletores; imaginar o regime de Assad como uma pessoa só e os rebeldes como outra pessoa, uma má e outra boa. A complexidade histórica do conflito é substituída por uma trama simples e clara.

O segundo é focar numa narrativa humana tocante, que supostamente se aplica a todo o conflito. Quando você tenta explicar às pessoas a verdadeira complexidade do conflito por meio de estatística e dados precisos, você as perde; porém uma narrativa pessoal sobre a sina de uma criança ativa os canais lacrimais, faz o sangue ferver e cria uma falsa certeza moral. 5 Isso é algo que muitas instituições de caridade compreenderam durante muito tempo. Num experimento digno de nota, pediu-se a pessoas que doassem dinheiro para ajudar uma pobre menina do Mali, de sete anos de idade, chamada Rokia. Muitos se comoveram com sua história e abriram corações e bolsos. Contudo, quando além da história pessoal de Rokia os pesquisadores também apresentaram estatísticas sobre o problema mais amplo da pobreza na África, os respondentes ficaram menos dispostos a ajudar. Em outro estudo, pediram-se doações para ajudar ou uma criança doente ou oito crianças doentes. As pessoas deram mais dinheiro à criança única do que ao grupo de oito.

O terceiro método para lidar com dilemas morais em grande escala é tecer teorias de conspiração. Entender como funciona a economia global, e se esse funcionamento é bom ou ruim, é complicado demais. É muito mais fácil imaginar que vinte multibilionários estão puxando as cordinhas nos bastidores, controlando a mídia e fomentando guerras para enriquecer. Quase sempre essa é uma fantasia sem fundamento. O mundo contemporâneo é muito complexo, não só para nosso senso de justiça, mas também para nossas capacidades gerenciais. Ninguém — inclusive os multibilionários, a CIA, os maçons e os Sábios de Sion — compreende realmente o que está acontecendo no mundo. Assim, ninguém é capaz de puxar as cordinhas.

Esses três métodos tentam negar a verdadeira complexidade do mundo. O quarto e último método é criar um dogma, depositar nossa fé em alguma teoria, instituição ou liderança supostamente onisciente, e segui-la para onde nos levar. Dogmas religiosos e ideológicos ainda são atraentes em nossa era científica justamente porque nos oferecem um porto seguro para a frustrante complexidade da realidade. Como já observado, movimentos seculares não estão livres desse perigo. Mesmo se você começar com uma rejeição de todos os dogmas religiosos e com um firme comprometimento com a verdade científica, cedo ou tarde a complexidade da realidade torna-se tão acabrunhante que se é levado a conceber uma doutrina que não seria questionada. Ainda que tal doutrina possa prover as pessoas de conforto intelectual e certeza moral, é discutível que ela possa prover justiça. 

O que deveríamos fazer então? Deveríamos adotar o dogma liberal e confiar no agregado de eleitores e clientes individuais? Ou talvez devêssemos rejeitar a abordagem individualista e, como muitas culturas anteriores na história, empoderar comunidades que adquiram um senso do mundo juntas? Uma solução assim, no entanto, só nos tira da frigideira da ignorância individual para nos jogar na fogueira do enviesado pensamento de grupo. Bandos de caçadores-coletores, comunidades rurais e até mesmo bairros urbanos podiam pensar juntos sobre os problemas em comum que enfrentam. Mas hoje temos problemas globais sem ter uma comunidade global. Nem o Facebook, nem o nacionalismo ou a religião estão próximos de criar essa comunidade. Todas as tribos humanas existentes estão empenhadas em fazer avançar seus interesses particulares e não em compreender a verdade global. Nem americanos, nem chineses, muçulmanos ou hindus constituem a “comunidade global” — e assim sua interpretação da realidade dificilmente será confiável. 

Deveríamos então desistir e declarar que a busca humana por entender a verdade e encontrar justiça fracassou? Entramos oficialmente na era da pós-verdade?

17. Pós-verdade 
Algumas fake news duram para sempre 

Atualmente se repete que estamos vivendo uma nova e assustadora era da “pós-verdade”, e que estamos cercados de mentiras e ficções. Não é difícil oferecer exemplos. No final de fevereiro de 2014, unidades especiais russas, sem ostentar insígnias de um exército, invadiram a Ucrânia e ocuparam instalações-chave na Crimeia. O governo russo e o presidente Putin em pessoa negaram repetidamente que eram tropas russas, e as descreveram como “grupos de autodefesa” espontâneos que poderiam ter adquirido equipamento parecido com o russo em lojas locais. 1 Ao fazer essa declaração absurda, Putin e seus assessores sabiam perfeitamente bem que estavam mentindo.

Nacionalistas russos são capazes de desculpar essa mentira alegando que ela atende a uma verdade maior. A Rússia estava engajada numa guerra justa, e, se é válido matar por uma causa justa, também não seria válido mentir? A causa mais elevada que alegadamente justificaria a invasão da Ucrânia era a preservação da sagrada nação russa. Segundo mitos nacionais, a Rússia é uma entidade que perdurou por mil anos apesar de repetidas tentativas de inimigos perversos de invadi-la e desmembrá-la. Depois dos mongóis, dos poloneses, dos suecos, da Grande Armée de Napoleão e da Wehrmacht de Hitler, na década de 1990 foi a Otan, os Estados Unidos e a União Europeia que tentaram destruir a Rússia, desmembrando partes de seu território e formando com eles “falsos países”, como a Ucrânia. Para muitos nacionalistas russos, a ideia de que a Ucrânia é uma nação separada da Rússia é uma mentira muito maior do que qualquer coisa pronunciada pelo presidente Putin durante sua missão sagrada de reintegrar a nação russa.

Cidadãos ucranianos, observadores externos e historiadores podem sentir-se ultrajados por essa explicação, e encará-la como uma espécie de “bomba atômica da mentira” no arsenal russo de embustes. Alegar que a Ucrânia não existe como nação e como país independente é desconsiderar uma longa lista de fatos históricos — por exemplo, que durante os mil anos de suposta unidade russa, Kíev e Moscou foram parte do mesmo país por somente trezentos anos. Isso também viola numerosas leis e tratados internacionais que a Rússia tinha aceitado e que salvaguardaram a soberania e as fronteiras da Ucrânia independente. Mais importante, ignora o que milhões de ucranianos pensam de si mesmos. Será que eles não têm o direito de dizer quem são?

Os nacionalistas ucranianos certamente concordariam com os nacionalistas russos de que existem por aí alguns falsos países. Mas a Ucrânia não é um deles. E, sim, esses falsos países são a “República Popular de Lugansk” e a “República Popular de Donetsk”, que a Rússia estabeleceu para mascarar sua não provocada invasão da Ucrânia.

Seja qual for o lado que você apoia, parece que estamos realmente vivendo uma era terrível da pós-verdade, quando não só incidentes militares específicos, mas narrativas e nações inteiras podem ser falsificadas. Mas, se essa é a era da pós-verdade, quando, exatamente, foi a era de ouro da verdade? Na década de 1980? De 1950? 1930? E o que desencadeou a transição para a pós-verdade — a internet? A mídia social? A ascensão de Putin e Trump?

Uma análise superficial da história revela que a propaganda e a desinformação não são nada novas, e até mesmo o hábito de negar nações inteiras e criar países falsos tem um longo pedigree. Em 1931 o Exército japonês encenou ataques simulados a si mesmo para justificar sua invasão da China, e depois criou o país falso de Manchukuo para legitimar suas conquistas. A própria China negou durante muito tempo que o Tibete alguma vez tenha existido como país independente. A colonização britânica na Austrália foi justificada com a doutrina legal de terra nullius (“terra de ninguém”), que efetivamente apagou 50 mil anos de história aborígene.

No início do século XX, um dos lemas favoritos do sionismo falava do retorno de “um povo sem terra [os judeus] a uma terra sem povo [Palestina]”. A existência de uma população árabe local foi convenientemente ignorada. Em 1969 a primeira-ministra israelense Golda Meir disse que não existe e nunca existiu um povo palestino. Essas ideias são muito comuns em Israel até hoje, apesar de décadas de conflitos armados contra algo que não existe. Por exemplo, em fevereiro de 2016, a parlamentar Anat Berko fez um discurso no Parlamento de Israel no qual duvidava da realidade e da história do povo palestino. Sua prova? A letra “P” nem sequer existe em árabe, então como pode haver um povo palestino? (Em árabe, usa-se “f” em lugar de “p”, e o nome árabe para a Palestina é Falastin.)

A ESPÉCIE DA PÓS-VERDADE 

Os humanos sempre viveram na era da pós-verdade. O Homo sapiens é uma espécie da pós-verdade, cujo poder depende de criar ficções e acreditar nelas. Desde a Idade da Pedra, mitos que se autorreforçavam serviram para unir coletivos humanos. Realmente, o Homo sapiens conquistou esse planeta graças, acima de tudo, à capacidade exclusiva dos humanos de criar e disseminar ficções. Somos os únicos mamíferos capazes de cooperar com vários estranhos porque somente nós somos capazes de inventar narrativas ficcionais, espalhá-las e convencer milhões de outros a acreditar nelas. Enquanto todos acreditarmos nas mesmas ficções, todos nós obedecemos às mesmas leis e, portanto, cooperamos efetivamente.

Assim, se você culpa o Facebook, Trump ou Putin por introduzir a nova e assustadora era da pós-verdade, lembre-se de que séculos atrás milhões de cristãos se fecharam dentro de uma bolha mitológica que se autorreforçava, nunca ousando questionar a veracidade factual da Bíblia, enquanto milhões de muçulmanos depositaram sua fé inquestionável no Corão. Por milênios, muito do que era considerado “notícia” e “fato” nas redes sociais humanas eram narrativas sobre milagres, anjos, demônios e bruxas, com ousados repórteres dando cobertura ao vivo diretamente das mais profundas fossas do submundo. Temos zero evidência científica de que Eva foi tentada pela serpente, que as almas dos infiéis ardem no inferno depois que morrem ou que o criador do universo não gosta quando um brâmane se casa com um intocável — mas bilhões de pessoas têm acreditado nessas narrativas durante milhares de anos. Algumas fake news duram para sempre.

Estou ciente de que muita gente poderá se aborrecer por eu equiparar religião com fake news, mas este é exatamente o ponto. Quando mil pessoas acreditam durante um mês numa história inventada — isso é fake news. Quando 1 bilhão de pessoas acreditam durante milhares de anos — isto é uma religião, e somos advertidos a não chamar de fake news para não ferir os sentimentos dos fiéis (ou incorrer em sua ira). Observe, no entanto, que não estou negando a efetividade ou benevolência potencial da religião. Exatamente o contrário. Para o bem ou para o mal, a ficção está entre os instrumentos mais eficazes na caixa de ferramentas da humanidade. Ao unir pessoas, credos religiosos possibilitam a cooperação em grande escala. Eles inspiram a construção de hospitais, escolas e pontes, além de exércitos e prisões. Adão e Eva nunca existiram, mas a catedral de Chartres continua linda. Grande parte da Bíblia pode ser ficcional, mas ainda é capaz de trazer alegria a bilhões, e ainda é capaz de incentivar os humanos a serem compassivos, corajosos e criativos — assim como outras grandes obras de ficção, como Dom Quixote, Guerra e paz e Harry Potter.

De novo, algumas pessoas podem se ofender com minha comparação da Bíblia com Harry Potter. Se você é um cristão com mente científica poderia minimizar todos os erros e mitos na Bíblia alegando que nunca se pretendeu que o livro sagrado fosse lido como um relato factual, e sim como uma narrativa metafórica que encerra profunda sabedoria. Mas isso não vale para Harry Potter também?

Se você é um cristão fundamentalista é mais provável que insista em que cada palavra da Bíblia é verdade. Suponhamos por um momento que você tem razão, e que a Bíblia realmente é a infalível palavra do único e verdadeiro Deus. O que, então, você faz com o Corão, o Talmude, o Livro dos Mórmons, os Vedas, o Avesta, o Livro dos Mortos egípcio? Você não fica tentado a dizer que esses textos são elaboradas ficções criadas por humanos de carne e osso (ou talvez por demônios)? E como vê você a divindade de imperadores romanos como Augusto e Cláudio? O Senado Romano alegava ter o poder de transformar pessoas em deuses, e depois esperava que os súditos do império cultuassem esses deuses. Isso não era ficção? De fato, temos pelo menos um exemplo na história de um falso deus que reconheceu a ficção numa declaração por sua própria boca. Como já observado, o militarismo japonês na década de 1930 e início da de 1940 apoiava-se na crença fanática na divindade do imperador Hirohito. Após a derrota do Japão, Hirohito proclamou publicamente que isso não era verdade, e que ele afinal de contas não era um deus.

Assim, mesmo se concordarmos que a Bíblia é a verdadeira palavra de Deus, isso ainda nos deixa com bilhões de devotos hindus, muçulmanos, judeus, egípcios, romanos e japoneses que durante milhares de anos depositaram sua confiança em ficções. De novo, isso não quer dizer que essas ficções são necessariamente desprovidas de valor ou danosas. Ainda podem ser belas e inspiradoras.

É claro que nem todos os mitos religiosos foram igualmente benevolentes. Em 29 de agosto de 1255, o corpo de um menino inglês de nove anos de idade chamado Hugh foi encontrado num poço, na cidade de Lincoln. Mesmo sem Facebook nem Twitter, rapidamente espalhou-se o boato de que Hugh tinha sido vítima de um assassinato ritual realizado pelos judeus locais. A história foi crescendo à medida que era recontada, e um dos mais renomados cronistas ingleses da época — Matthew Paris — criou uma detalhada e sangrenta versão de como judeus proeminentes de toda a Inglaterra reuniram-se em Lincoln para engordar, torturar e finalmente crucificar o menino sequestrado. Dezenove judeus foram julgados e executados pelo suposto assassinato. Libelos de sangue semelhantes tornaram-se populares em outras cidades inglesas, levando a uma série de pogroms nos quais comunidades inteiras foram massacradas. Posteriormente, em 1290, toda a população judaica da Inglaterra foi expulsa do país. 

A história não termina aí. Um século depois da expulsão dos judeus da Inglaterra, Geoffrey Chaucer — o pai da literatura inglesa — incluiu um libelo de sangue modelado na história de Hugh de Lincoln em seus Contos da Cantuária (“Conto da Prioresa”). O texto culmina com o enforcamento dos judeus. Libelos de sangue semelhantes tornaram-se subsequentemente componentes básicos de todo movimento antissemita, da Espanha medieval à Rússia moderna. Pôde-se ouvir um eco distante disso na fake news de que Hillary Clinton chefiava uma rede de tráfico humano que mantinha crianças como escravas sexuais no porão de uma pizzaria muito frequentada. Não foram poucos os americanos que acreditaram na história, destinada a prejudicar a campanha eleitoral de Clinton, e uma pessoa até veio armada à pizzaria e exigiu ver o porão (constatou-se que a pizzaria nem tinha porão).

Quanto ao próprio Hugh de Lincoln, ninguém sabe realmente como ele morreu, mas foi enterrado na catedral de Lincoln e venerado como um santo. Foi reputado como o realizador de vários milagres, e seu túmulo continua a atrair peregrinos até mesmo séculos depois da expulsão de todos os judeus da Inglaterra. 5 Foi somente em 1955 — dez anos após o Holocausto — que a catedral de Lincoln repudiou a versão do libelo de sangue, colocando uma placa junto ao túmulo, onde se lê: Histórias inventadas de “assassinatos rituais” de meninos cristãos por comunidades judaicas eram comuns em toda a Europa durante a Idade Média, e mesmo muito mais tarde. Essas ficções custaram a vida de muitos judeus inocentes. Lincoln teve sua própria lenda, e a alegada vítima foi sepultada na Catedral no ano de 1255. Essas histórias não redundam em crédito para a Cristandade.

Bem, algumas fake news duram apenas setecentos anos. 

UMA VEZ MENTIRA, SEMPRE VERDADE 

Religiões antigas não foram as únicas que usaram ficção para cimentar cooperação. Em tempos mais recentes, cada nação criou sua própria mitologia nacional, enquanto movimentos como o comunismo, o fascismo e o liberalismo modelaram elaborados credos que se autorreforçam. Diz-se que Joseph Goebbels, o maestro da propaganda nazista, e talvez o mais realizado mago da mídia da era moderna, explicou seu método sucintamente declarando que “uma mentira dita uma vez continua uma mentira, mas uma mentira dita mil vezes torna-se verdade”. Em Mein Kampf, Hitler escreveu que “a mais brilhante técnica de propaganda não vai ter sucesso a menos que se leve sempre em conta um princípio fundamental — ela tem de se limitar a alguns pontos e repeti-los sem parar”. 8 Será que algum vendedor de fake news atual é capaz de fazer melhor do que isso? 

A máquina de propaganda soviética foi igualmente ágil com a verdade, reescrevendo a história de tudo, desde guerras inteiras até fotografias individuais. Em 29 de junho de 1936, o jornal oficial Pravda (“verdade”, em russo) trazia na primeira página uma foto de um sorridente Josef Stálin abraçando Gelya Markizova, uma menina de sete anos. A imagem tornou-se um ícone stalinista, consagrando Stálin como o Pai da Nação e idealizando a “Feliz Infância Soviética”. Gráficas e fábricas por todo o país produziram milhões de pôsteres, esculturas e mosaicos da cena, que foram exibidos em instituições públicas de uma extremidade da União Soviética a outra. Assim como nenhuma igreja ortodoxa russa está completa sem um ícone da Virgem Maria segurando o menino Jesus, nenhuma escola soviética poderia dispensar um ícone de papai Stálin segurando a pequena Gelya.

Infelizmente, no império de Stálin a fama era quase sempre um convite à catástrofe. Um ano depois da foto, o pai de Gelya foi preso sob a espúria acusação de que era um espião japonês e um terrorista trotskista. Em 1938 foi executado, uma das milhões de vítimas do terror stalinista. Gelya e sua mãe foram exiladas para o Cazaquistão, onde a mãe logo morreu em circunstâncias misteriosas. O que fazer agora com os incontáveis ícones mostrando o Pai da Nação com a filha de um condenado “inimigo do povo”? Sem problema. Daquele momento em diante, Gelya Markizova desapareceu, e a “Feliz Criança Soviética” na imagem ubíqua foi identificada como Mamlakat Nakhangova — uma menina tadjique de treze anos que recebeu a Ordem de Lênin colhendo diligentemente grandes quantidades de algodão nos campos (se alguém achasse que a menina na foto não parecia ter treze anos, pensava duas vezes antes de mencionar tal heresia antirrevolucionária).

A máquina de propaganda soviética era tão eficiente que conseguiu esconder as atrocidades monstruosas em casa ao mesmo tempo que projetava uma visão utópica no exterior. Hoje os ucranianos se queixam de que Putin conseguiu enganar grande parte da mídia ocidental quanto às ações da Rússia na Crimeia e em Donbas. Mas na arte da enganação ele dificilmente se equipara a Stálin. No início da década de 1930, jornalistas e intelectuais ocidentais de esquerda louvavam a União Soviética como uma sociedade ideal, enquanto ucranianos e outros cidadãos soviéticos morriam de fome aos milhões por causa das políticas orquestradas por Stálin. Apesar de, na era do Facebook e do Twitter, ser às vezes difícil decidir em quais versões de um acontecimento acreditar, pelo menos já não é mais possível um regime matar milhões sem que o mundo saiba.

Além de religiões e de ideologias, empresas comerciais também se apoiam em ficção e fake news. Divulgar uma marca envolve recontar a mesma narrativa ficcional várias vezes, até as pessoas ficarem convencidas de sua veracidade. Que imagens ocorrem quando você pensa em Coca-Cola? Você pensa em pessoas jovens e saudáveis praticando esportes e se divertindo? Ou pensa em pessoas com diabetes e sobrepeso deitadas numa cama de hospital? Beber Coca-Cola não te deixará mais jovem, mais saudável, nem mais atlético — e sim mais propenso a sofrer de obesidade e diabetes. Mas durante décadas a Coca-Cola investiu bilhões de dólares associando sua imagem a juventude, saúde e esportes — e bilhões de humanos subconscientemente acreditam nessa associação. 

O fato é que a verdade nunca teve papel de destaque na agenda do Homo sapiens. Muita gente supõe que se uma determinada religião ou ideologia não representa a realidade, cedo ou tarde seus adeptos acabarão descobrindo, porque não serão capazes de competir com rivais mais esclarecidos. Bem, esse é apenas mais um mito reconfortante. Na prática, o poder da cooperação humana depende de um delicado equilíbrio entre a verdade e a ficção.

Se você distorcer demais a realidade, isso na verdade vai enfraquecê-lo, fazendo-o agir de maneira irrealista. Por exemplo, em 1905 um médium da África Oriental chamado Kinjikitile Ngwale alegou estar possuído pelo espírito da cobra Hongo. O novo profeta tinha uma mensagem revolucionária para o povo da colônia alemã da África Oriental: unam-se e expulsem os alemães. Para tornar a mensagem mais atraente, Ngwale proveu seus seguidores de remédios mágicos que, supostamente, transformariam as balas dos alemães em água (maji, em suaili). Isso deu início à Rebelião Maji Maji. Ela fracassou. Porque no campo de batalha as balas alemãs não se transformaram em água. Em vez disso, elas rasgaram impiedosamente o corpo dos mal armados rebeldes. Dois mil anos antes, a Grande Revolta Judaica contra os romanos foi inspirada, de forma parecida, por uma ardente crença de que Deus lutaria pelos judeus e os ajudaria a derrotar o aparentemente invencível Império Romano. Isso fracassou também, levando à destruição de Jerusalém e ao exílio dos judeus.

Por outro lado, você não será capaz de organizar com eficiência grandes massas sem se apoiar em alguma mitologia. Se ficar preso à realidade crua, poucas pessoas o seguirão. Sem mitos, teria sido impossível organizar não só as revoltas Maji Maji e judaicas, mas também as muito mais bem-sucedidas rebeliões dos Mahdi e dos Macabeus.  

As histórias falsas têm uma vantagem intrínseca em relação à verdade quando se trata de unir pessoas. Se você quer calibrar a lealdade de um grupo, pedir às pessoas que acreditem num absurdo é um teste muito melhor do que pedir que acreditem na verdade. Se um grande chefe disser “o sol nasce no leste e se põe no oeste” não se requer lealdade para aplaudi-lo. Mas se o chefe disser “o sol nasce no oeste e se põe no leste” apenas os que lhe forem verdadeiramente leais baterão palmas. Da mesma forma, se todos os seus vizinhos acreditarem na mesma história absurda, você pode contar com eles em momentos de crise. Se só aceitam acreditar em fatos comprovados, o que isso prova?

Poder-se-ia alegar que, ao menos em alguns casos, é possível organizar pessoas mediante acordos consensuais e não por meio de ficções e mitos. Assim, na esfera econômica, dinheiro e corporações unem pessoas muito mais efetivamente do que qualquer deus ou livro sagrado, apesar de todos saberem que isso é apenas uma convenção criada por humanos. No caso do livro sagrado, um verdadeiro crente diria “eu acredito que o livro é sagrado”, enquanto no caso do dólar, um verdadeiro crente diria apenas que “eu acredito que outras pessoas acreditam que o dólar tem valor”. É óbvio que o dólar é apenas uma criação humana, porém pessoas do mundo inteiro o respeitam. Se é assim, por que os humanos não são capazes de abandonar todos os mitos e ficções, e se organizar com base em convenções consensuais, como o dólar?

Essas convenções, no entanto, não são claramente diferentes de ficção. A diferença entre livros sagrados e dinheiro, por exemplo, é muito menor do que pode parecer à primeira vista. Quando veem uma nota de dólar, a maioria das pessoas esquece que aquilo é apenas uma convenção humana. Quando veem o pedaço de papel verde com a figura do homem branco que já morreu, elas o veem como algo valioso em si mesmo e por si mesmo. Dificilmente pensam: “Na verdade, isto é um pedaço de papel sem valor, mas, como outras pessoas o consideram valioso, posso fazer uso dele”. Se você observar um cérebro humano num escâner de ressonância magnética funcional, verá que quando se mostra a alguém uma mala cheia de cédulas de cem dólares, as partes do cérebro que começam a zumbir excitadamente não são as partes céticas (“outras pessoas acreditam que isto é valioso”) e sim as partes gananciosas (“Puta merda! Eu quero isso!”). Inversamente, na grande maioria dos casos, as pessoas só começam a santificar a Bíblia ou os Vedas ou o Livro dos Mórmons após uma longa e repetida exposição a outras pessoas que os consideram sagrados. Aprendemos a respeitar livros sagrados da mesmíssima maneira que aprendemos a respeitar notas de dinheiro.

Daí que, na prática, não existe uma divisão clara entre “saber que algo é apenas uma convenção humana” e “crer que algo é inerentemente valioso”. Em muitos casos, as pessoas são ambíguas ou desatentas a essa divisão. Para dar outro exemplo, se você sentar e tiver uma profunda discussão filosófica sobre isso, quase todo mundo concordaria que corporações são narrativas ficcionais criadas por seres humanos. A Microsoft não é os prédios que possui, as pessoas que emprega ou os acionistas aos quais ela serve — e sim uma intricada ficção legal tecida por legisladores e advogados. Mas em 99% do tempo não estamos engajados em profundas discussões filosóficas, e tratamos as corporações como se fossem entidades reais no mundo, assim como tigres ou humanos.

Embaçar a linha entre ficção e realidade pode servir a muitos propósitos, começando com “divertimento”, até “sobrevivência”. Você não pode jogar jogos ou ler romances a menos que suspenda sua descrença, ao menos por um momento. Para realmente curtir o futebol, você tem de aceitar as regras do jogo, e esquecer, ao menos durante noventa minutos, que elas são apenas invenções humanas. Se não fizer isso, vai achar ridículo que 22 pessoas fiquem correndo atrás de uma bola. O futebol pode começar como diversão, mas depois se tornar coisa muito mais séria, como qualquer hooligan inglês ou nacionalista argentino atestará. O futebol pode ajudar a formar identidades pessoais, pode cimentar comunidades em grande escala e pode até mesmo ensejar motivos para violência. Nações e religiões são times de futebol hipertrofiados. 

Humanos têm a notável capacidade de saber e não saber ao mesmo tempo. Ou, mais corretamente, eles são capazes de saber alguma coisa quando de fato pensam sobre ela, mas na maior parte do tempo não pensam sobre ela, por isso não sabem. Se realmente se concentrar, você se dará conta de que dinheiro é ficção. Mas normalmente você não se concentra. Se lhe perguntam sobre o futebol, você sabe que é uma invenção humana. Mas no calor de um jogo, ninguém lhe perguntará sobre isso. Se dedicar tempo e energia, você poderá descobrir que nações são elaboradas invencionices. Mas em meio a uma guerra você não tem tempo nem energia. Se você exigir a verdade suprema, constatará que a história de Adão e Eva é um mito. Mas quão frequentemente você exige a verdade suprema?

Verdade e poder podem andar juntos só até certo ponto. Cedo ou tarde vão seguir caminhos separados. Se você quer poder, em algum momento terá de disseminar mentiras. Se quiser saber a verdade sobre o mundo, em algum momento terá de renunciar ao poder. Terá de admitir coisas — como as origens de seu poder, por exemplo — que vão enfurecer aliados, desengajar seguidores e minar a harmonia social. Não há nada de místico nessa lacuna entre verdade e poder. Como testemunho disso, apenas encontre um típico americano protestante, anglo-saxão, branco e levante a questão de raça, localize um israelense da corrente majoritária e mencione a Ocupação, ou tente falar com um sujeito comum sobre patriarcado.

Ao longo da história, eruditos depararam com esse dilema repetidamente. Deveriam servir ao poder ou à verdade? Deveriam manter as pessoas unidas, garantindo que todas acreditassem na mesma narrativa, ou deveriam deixar que soubessem a verdade, mesmo ao preço da desunião? Os intelectualmente mais poderosos — fossem sacerdotes cristãos, mandarins confucianos ou ideólogos comunistas — puseram a união acima da verdade. E justamente por isso eram tão poderosos. 

Como espécie, os humanos preferem o poder à verdade. Dedicamos muito mais tempo e esforço tentando controlar o mundo do que tentando compreendê-lo —, e mesmo quando tentamos compreendê-lo, normalmente fazemos isso na esperança de que compreender o mundo fará com que nos seja mais fácil controlá-lo. Por isso, se você sonha com uma sociedade na qual a verdade reina suprema e os mitos são ignorados, não pode esperar muito do Homo sapiens. Melhor tentar a sorte com os chipanzés.

ESCAPANDO DA MÁQUINA DE LAVAGEM CEREBRAL 

Tudo isso não significa que as fake news não sejam um problema sério, ou que políticos e sacerdotes tenham liberdade total para mentir descaradamente. Também seria errado concluir que tudo são apenas fake news, que toda tentativa de descobrir a verdade está destinada ao fracasso e que não existe diferença entre jornalismo sério e propaganda. Subjacentes a todas as fake news existem fatos reais e sofrimentos reais. Na Ucrânia, por exemplo, soldados russos estão realmente combatendo, milhares já morreram de verdade e centenas de milhares perderam seus lares. O sofrimento humano pode ser causado por crença na ficção, mas o sofrimento em si ainda é real. 

Portanto, em vez de aceitar fake news como a norma, deveríamos reconhecer que é um problema muito mais difícil do que supomos, e que deveríamos nos esforçar ainda mais para distinguir a realidade da ficção. Que não se espere perfeição. Uma das maiores ficções de todas é negar a complexidade do mundo e pensar em termos absolutos numa pureza imaculada contra o mal satânico. Nenhum político diz toda a verdade e nada além da verdade, mas alguns políticos são bem melhores que outros. Se pudesse escolher, eu confiaria muito mais em Churchill do que em Stálin, embora o primeiro-ministro britânico não deixasse de dourar a pílula quando isso lhe era conveniente. Da mesma forma, nenhum jornal está livre de vieses e erros, mas alguns fazem um esforço honesto de descobrir a verdade, enquanto outros são uma máquina de lavagem cerebral. Se eu tivesse vivido na década de 1930, gostaria de ter tido o bom senso de acreditar mais no New York Times do que no Pravda e no Der Stürmer.

É responsabilidade de todos nós investir tempo e esforço para expor nossos vieses e preconceitos, e para verificar nossas fontes de informação. Como observado em capítulos anteriores, não somos capazes de investigar tudo sozinhos. Mas exatamente por causa disso precisamos ao menos investigar com cuidado nossas fontes de informação preferidas — seja um jornal, um site, uma rede de televisão ou uma pessoa. No capítulo 20 vamos explorar com muito mais profundidade como evitar a lavagem cerebral e como distinguir realidade de ficção. Aqui, gostaria de oferecer de improviso duas regras gerais simples.

Primeira: se você quer uma informação confiável — pague por ela. Se obtiver suas notícias gratuitamente, talvez o produto seja você. Suponha que um obscuro bilionário lhe ofereça o seguinte negócio: “Vou lhe pagar trinta dólares por mês, e em troca você permitirá que todo dia eu lhe faça uma lavagem cerebral durante uma hora, instalando em seu cérebro quaisquer vieses políticos ou comerciais que eu queira”. Você aceitaria esse acordo? Poucas pessoas mentalmente sãs o fariam. Assim, o obscuro milionário oferece um acordo um pouco diferente: “Você permitirá que eu lhe faça uma lavagem cerebral diariamente, e em troca não vou lhe cobrar nada pelo serviço”. Agora o acordo soa tentador para centenas de milhões de pessoas. Não vá por esse caminho.

A segunda regra geral é que se algum assunto parece ser importante para você, faça o esforço de ler literatura científica relevante sobre ele. E o que entendo por literatura científica são artigos avaliados por pares, livros publicados por editoras acadêmicas bem conhecidas e textos de professores de instituições respeitáveis. Obviamente, a ciência tem suas limitações e se envolveu com muitas coisas erradas no passado. Ainda assim, a comunidade científica tem sido nossa fonte mais confiável de conhecimento, durante séculos. Se você acha que a comunidade científica está errada quanto a alguma coisa, isso é bem possível, mas pelo menos conheça as teorias científicas que está rejeitando, e apresente alguma evidência empírica que sustente sua alegação.

Os cientistas, por sua vez, precisam estar muito mais envolvidos nos debates públicos atuais. Não deveriam ter medo de se fazer ouvir quando o debate se estender a seu campo de especialidade, seja a medicina ou a história. Silêncio não é neutralidade, é apoio ao status quo. É claro que é extremamente importante continuar a fazer pesquisa científica e publicar os resultados em revistas científicas que só uns poucos especialistas leem. Mas é igualmente importante comunicar as últimas teorias científicas ao público em geral por meio de livros de divulgação científica e até mesmo mediante o uso inteligente da arte e da ficção. 

Isso significa que cientistas deveriam começar a escrever livros de ficção científica? Não seria má ideia. A arte desempenha um papel fundamental na maneira pela qual as pessoas concebem o mundo, e no século XXI a ficção científica é sem dúvida o gênero mais importante de todos, pois ela expressa como a maioria das pessoas compreende coisas como a IA, a bioengenharia e a mudança climática. De fato precisamos de boa ciência, mas de uma perspectiva política, um bom filme de ficção científica vale muito mais do que um artigo na Science ou na Nature.

18. Ficção científica 
O futuro não é o que você vê nos filmes  

Os humanos controlam o mundo porque são capazes de cooperar melhor do que qualquer outro animal, e são capazes de cooperar tão bem porque acreditam em ficções. Poetas, pintores e dramaturgos são, portanto, pelo menos tão importantes quanto soldados e engenheiros. As pessoas vão à guerra e constroem catedrais porque acreditam em Deus, e acreditam em Deus porque leram poemas sobre Deus, porque viram imagens que representam Deus e porque ficaram hipnotizadas ao assistir a peças teatrais sobre Deus. Da mesma forma, nossa crença na moderna mitologia do capitalismo é sustentada pelas criações artísticas de Hollywood e pela indústria pop. Acreditamos que comprar mais coisas vai nos fazer felizes, porque vemos o paraíso capitalista com nossos próprios olhos, na televisão.

No início do século XXI, talvez o gênero artístico mais importante seja a ficção científica. Muito pouca gente leu os artigos mais recentes nos campos do aprendizado de máquina ou da engenharia genética. Em vez disso, filmes como Matrix e Ela e séries de televisão como Westworld e Black Mirror expressam como as pessoas entendem os mais importantes desenvolvimentos tecnológicos, sociais e econômicos de nossos tempos. Isso significa também que a ficção precisa ser muito mais responsável quanto ao modo como descreve realidades científicas, do contrário poderá incutir nas pessoas ideias erradas, ou focar sua atenção nos problemas errados.

Como observado em um capítulo anterior, talvez o maior pecado da ficção científica atual seja a tendência a confundir inteligência com consciência. Como resultado, está preocupada demais com uma possível guerra entre robôs e humanos, quando na realidade devemos temer um conflito entre uma pequena elite de super-humanos com poderes ampliados por algoritmos e uma vasta subclasse de Homo sapiens sem nenhum poder. Quando se pensa no futuro da IA, Karl Marx ainda é um guia melhor que Steven Spielberg.

De fato, muitos filmes sobre inteligência artificial são tão divorciados da realidade científica que se pode suspeitar serem só alegorias de preocupações completamente diferentes. Assim, o filme Ex Machina: instinto artificial parece ser sobre um especialista em IA que se apaixona por uma robô e acaba sendo enganado e manipulado por ela. Mas na verdade não é um filme sobre o medo que humanos têm de robôs inteligentes. É um filme sobre o medo que o homem tem de uma mulher inteligente, em especial o medo de que liberação feminina possa levar à dominação dos homens. Sempre que você assiste a um filme sobre IA no qual a IA é mulher e o cientista é homem, provavelmente é um filme sobre o feminismo, e não sobre cibernética. Pois por que cargas d’água uma IA teria uma identidade sexual ou de gênero? O sexo é uma característica de seres orgânicos multicelulares. O que poderia significar para um ser cibernético não orgânico?

VIVER NUMA CAIXA 

Um assunto que a ficção científica explorou com muito mais discernimento diz respeito ao perigo de a tecnologia ser usada para manipular e controlar seres humanos. O filme Matrix descreve um mundo no qual quase todos os humanos estão aprisionados num ciberespaço, e tudo o que eles vivenciam é configurado por um algoritmo mestre. O show de Truman concentra-se num único indivíduo que é o astro involuntário de um reality show na televisão. Sem que ele saiba, todos os seus amigos e conhecidos — inclusive sua mãe, sua mulher e seu melhor amigo — são atores; tudo o que acontece com ele segue um roteiro bem trabalhado; e tudo o que ele diz e faz é gravado por câmeras ocultas e avidamente acompanhado por milhões de fãs. 

 No entanto, ambos os filmes — não obstante seu brilhantismo — no fim se distanciam de tudo o que implicam seus cenários. Presumem que os humanos presos na armadilha da matrix têm um “eu” autêntico, que permanece intocado por todas as manipulações tecnológicas, e que além da matrix está à espera uma realidade autêntica, que os heróis podem acessar se se esforçarem. A matrix é só uma barreira artificial que separa seu autêntico “eu” interior do autêntico mundo exterior. Após muitas tentativas e atribulações, os dois heróis — Neo em Matrix e Truman em O show de Truman — conseguem transcender e escapar da rede de manipulações, descobrir seu “eu” autêntico e alcançar a autêntica terra prometida.

Muito curiosamente, essa autêntica terra prometida é idêntica em todos os aspectos importantes à inventada matrix. Quando Truman escapa do estúdio de televisão, ele busca se reencontrar com a namorada da época do ensino médio, que o diretor do programa tinha banido do elenco. Mas, se Truman realizasse sua fantasia romântica, sua vida seria exatamente como o perfeito sonho de Hollywood que O Show de Truman vendeu a milhões de espectadores em todo o mundo — com direito a férias nas ilhas Fiji. O filme não nos dá uma dica sequer sobre que tipo de vida alternativa Truman poderia encontrar no mundo real.

Da mesma forma, quando Neo sai da matrix engolindo a famosa pílula vermelha, ele descobre que o mundo de fora não é diferente do mundo de dentro. Tanto fora como dentro há conflitos violentos e pessoas movidas por medo, luxúria, amor e inveja. O filme deveria terminar quando dizem a Neo que a realidade que ele acessou é só uma matrix maior, e que se ele quiser escapar para o “verdadeiro mundo real”, terá de escolher novamente entre a pílula azul e a vermelha.

A atual revolução tecnológica e científica implica não que indivíduos autênticos e realidades autênticas podem ser manipulados por algoritmos e câmeras de televisão, e sim que a autenticidade é um mito. As pessoas têm medo de ficar presas numa armadilha dentro de uma caixa, mas não se dão conta de que já estão presas dentro de uma caixa — seu cérebro — que está trancada dentro de uma caixa maior — a sociedade humana com suas incontáveis ficções. Quando você escapa da matrix, a única coisa que descobre é uma matrix maior. Quando camponeses e trabalhadores se revoltaram contra o tsar em 1917, eles acabaram com Stálin; e, quando você começa a explorar as múltiplas maneiras com que o mundo o manipula, no fim você constata que sua identidade mais íntima é uma ilusão completa criada por redes neurais.

As pessoas têm medo de que, ao estarem presas dentro de uma caixa, perderão todas as maravilhas do mundo. Enquanto Neo está preso na matrix, e Truman está preso no estúdio de televisão, eles nunca visitarão as ilhas Fiji, ou Paris, ou Machu Picchu. Mas, na verdade, tudo o que você experimentar na vida está dentro de seu próprio corpo e sua própria mente. Escapar da matrix ou ir para Fiji não fará nenhuma diferença. Não é que em algum lugar de sua mente exista um baú de ferro com uma grande placa advertindo em vermelho “Abra apenas em Fiji!”, e quando você finalmente viajar para o Pacífico Sul vai poder abrir o baú e vivenciar todos as emoções e sensações especiais que só se pode ter em Fiji. E se nunca visitar Fiji em sua vida, então você perdeu para sempre essas sensações especiais. Não. O que quer que você seja capaz de sentir em Fiji, você é capaz de sentir em qualquer lugar do mundo; até mesmo dentro da matrix.

Talvez estejamos vivendo dentro de uma gigantesca simulação de computador, no estilo de Matrix. Isso estaria em contradição com todas as nossas narrativas nacionais, religiosas e ideológicas. Mas nossas experiências mentais ainda seriam reais. Se se descobrir que a história humana é uma elaborada simulação conduzida num supercomputador por ratos cientistas do planeta Zircon, isso seria bastante embaraçoso para Karl Marx e para o Estado Islâmico. Mas esses ratos cientistas ainda teriam de responder pelo genocídio armênio e por Auschwitz. Como isso teria passado pelo comitê de ética da Universidade de Zircon? Mesmo que as câmaras de gás tenham sido apenas sinais elétricos em chips de silício, as experiências da dor, do medo e do desespero não teriam sido nem um pouco menos excruciantes.

Dor é dor, medo é medo, e amor é amor — mesmo na matrix. Não importa se o medo que você sente seja inspirado por um conjunto de átomos ou por sinais elétricos manipulados por um computador. O medo continua a ser real. Assim, se você quiser explorar a realidade de sua mente, poderá fazer isso dentro ou fora da matrix. 

A maioria dos filmes de ficção científica na verdade conta uma narrativa muito antiga: a vitória da mente sobre a matéria. Trinta mil anos atrás, a narrativa era: “Mente imagina uma faca de pedra — mão cria a faca — humano mata mamute”. Mas a verdade é que os humanos ganharam o controle do mundo não tanto por terem inventado facas e matado mamutes quanto por manipularem mentes humanas. A mente não é o sujeito que modela a seu bel-prazer ações históricas e realidades biológicas — a mente é um objeto que está sendo modelado pela história e pela biologia. Mesmo nossos ideais mais profundos — liberdade, amor, criatividade — são como uma faca de pedra que alguém modelou para matar algum mamute. Segundo as melhores teorias científicas e as mais atualizadas ferramentas tecnológicas, a mente nunca está livre de manipulação. Não existe um “eu” autêntico esperando ser libertado da carapaça da manipulação. 

Você tem alguma ideia de quantos filmes, romances e poemas consumiu ao longo dos anos, e como esses artefatos esculpiram e aguçaram sua noção de o que é o amor? Comédias românticas estão para o amor assim como filmes pornográficos estão para o sexo e Rambo está para a guerra. E, se você pensa que pode apertar algum botão “delete” e erradicar todo traço de Hollywood de seu subconsciente e de seu sistema límbico, está iludindo a si mesmo. 

Gostamos da ideia de modelar facas de pedra, mas não gostamos da ideia de sermos, nós mesmos, facas de pedra. Assim, a variante da matrix para a antiga história do mamute é algo assim: “Mente imagina um robô — mão cria um robô — robô mata terroristas mas também tenta controlar a mente — mente mata robô”. Mas essa narrativa é falsa. O problema não é que a mente não seja capaz de matar o robô. O problema, para começo de conversa, é que a mente que imaginou o robô já era o produto de manipulações muito anteriores. Por isso matar o robô não vai nos libertar.

A DISNEY PERDE A FÉ NO LIVRE-ARBÍTRIO 

Em 2015, os estúdios Pixar e Walt Disney lançaram uma animação sobre a condição humana muito realista e perturbadora e que rapidamente tornou-se um grande sucesso entre crianças e adultos. Divertida mente conta a história de uma menina de onze anos, Riley Anderson, que muda com seus pais de Minnesota para San Francisco. Com saudade dos amigos e de sua cidade natal, ela tem dificuldade para se adaptar à nova vida, e tenta fugir de volta para Minnesota. Porém, sem que Riley saiba, um drama muito maior está acontecendo. Riley não é uma estrela involuntária de um reality show, e não está presa na matrix. A própria Riley é a matrix, e há algo preso dentro dela.  

Disney construiu seu império recontando um mito repetidas vezes. Em vários de seus filmes, os heróis enfrentam dificuldades e perigos, mas triunfam no final, encontrando seu verdadeiro eu e seguindo sua livre escolha. Divertida mente desmonta esse mito por completo. Adota a mais recente visão neurobiológica dos humanos e leva os espectadores numa jornada para dentro do cérebro de Riley, para revelar que ela não tem um eu autêntico e que nunca fez quaisquer escolhas livres. Riley é na verdade um enorme robô manejado por um conjunto de mecanismos bioquímicos em conflito, os quais o filme personifica na forma de simpáticos personagens de animação: a amarela e alegre Alegria, a azul e morosa Tristeza, o vermelho e irascível Raiva, e assim por diante. Manipulando uma série de botões e alavancas no Quartel-General, enquanto observam cada movimento de Riley numa enorme tela de televisão, esses personagens controlam todos os humores, decisões e ações de Riley.

O fracasso de Riley em se adaptar a sua nova vida em San Francisco resulta de uma confusão no Quartel-General que ameaça pôr o cérebro de Riley totalmente fora de equilíbrio. Para corrigir as coisas, Alegria e Tristeza partem numa jornada épica pelo cérebro de Riley, viajando no trem do pensamento, explorando a prisão do subconsciente e visitando o estúdio interno onde uma equipe de neurônios artistas está ocupada na fabricação de sonhos. Enquanto percorremos esses mecanismos bioquímicos personalizados nas profundezas do cérebro de Riley, nunca encontramos uma alma, um autêntico eu ou um livre-arbítrio. De fato, o momento de revelação no qual toda a trama se articula acontece não quando Riley descobre seu único e autêntico eu, e sim quando fica evidente que Riley não pode ser identificada por um núcleo único, e que seu bem-estar depende da interação de muitos mecanismos diferentes.

No começo, os espectadores são levados a identificar Riley com a personagem líder — a amarela e contente Alegria. Mas depois constata-se que esse foi o erro crucial que ameaçou arruinar a vida de Riley. Pensando que ela é, sozinha, a essência autêntica de Riley, Alegria intimida todos os outros personagens interiores, rompendo o delicado equilíbrio do cérebro. A catarse acontece quando Alegria percebe seu erro e — junto com os espectadores — constata que Riley não é Alegria, ou Tristeza ou qualquer um dos outros personagens. Riley é uma narrativa complexa produzida pelos conflitos e pela colaboração de todos os personagens bioquímicos juntos.

O mais espantoso é não só que a Disney ousou lançar no mercado um filme com uma mensagem tão radical — mas que ele tenha se tornado um sucesso no mundo todo. Talvez tenha sido assim porque Divertida mente é uma comédia com final feliz, e é bem capaz que a maioria dos espectadores não tenha captado seu significado neurológico e suas sinistras implicações.

Não se pode dizer o mesmo do mais profético livro de ficção científica do século XX. Não é possível deixar de perceber sua natureza sinistra. Foi escrito quase um século atrás, mas torna-se mais relevante a cada ano que passa. Aldous Huxley escreveu Admirável Mundo Novo em 1931, com o comunismo e o fascismo entrincheirados na Rússia e na Itália, o nazismo em ascensão na Alemanha, um Japão militarista dando início a sua guerra de conquista na China e o mundo inteiro tomado pela Grande Depressão. Mas Huxley conseguiu enxergar através de todas essas nuvens escuras e prever uma sociedade sem guerras, fome e epidemias, usufruindo de paz, prosperidade e saúde ininterruptas. É um mundo consumista, que deixa reinar livremente o sexo, as drogas e o rock ‘n’ roll, e cujo valor supremo é a felicidade. O pressuposto que subjaz no livro é que os humanos são algoritmos bioquímicos, que a ciência é capaz de hackear o algoritmo humano e que a tecnologia pode ser usada para manipulá-lo. 

Nesse admirável mundo novo, o Governo Mundial utiliza biotecnologia avançada e engenharia social para garantir que todos estejam sempre contentes e que ninguém tenha nenhum motivo para se rebelar. É como se Alegria, Tristeza e outros personagens no cérebro de Riley tivessem se tornado agentes leais ao governo. Não há, portanto, necessidade de uma polícia secreta, ou de campos de concentração, ou de um ministério do amor, à la 1984, de Orwell. Na verdade, o genial em Huxley consiste em demonstrar que é possível controlar pessoas com muito mais segurança mediante amor e prazer do que por medo e violência.

Quando se lê 1984 fica claro que Orwell está descrevendo um assustador mundo de pesadelo, e a única questão deixada em aberto é “Como evitamos chegar a um estado tão terrível?”. Ler Admirável Mundo Novo é uma experiência muito mais desconcertante e desafiadora, porque é difícil identificar exatamente o que o faz distópico. O mundo é pacífico e próspero, e todos estão satisfeitos o tempo todo. O que poderia estar errado?

Huxley faz essa pergunta diretamente, no momento de clímax do romance: o diálogo entre Mustafá Mond, o Controlador do Mundo para a Europa ocidental, e John, o Selvagem, que viveu toda sua vida numa reserva nativa no Novo México, e que é o único homem em Londres que nunca ouviu falar em Shakespeare ou Deus.

Quando John, o Selvagem, tenta incitar o povo de Londres a se rebelar contra o sistema que os controla, eles reagem a seu chamado com apatia total, mas a polícia o prende e o traz à presença de Mustafá Mond. O Controlador do Mundo tem uma agradável conversa com John, explicando que se ele insiste em ser antissocial deveria retirar-se para algum lugar isolado e viver como um eremita. John então questiona as ideias que sustentam a ordem global, e acusa o Governo Mundial de que, na busca da felicidade, ele eliminou não só a verdade e a beleza, mas tudo o que é nobre e heroico na vida. 

“Meu jovem querido amigo”, diz Mustafá Mond, “a civilização não precisa de nobreza ou heroísmo. Essas coisas são sintomas de ineficiência política. Numa sociedade bem organizada como a nossa, ninguém tem qualquer oportunidade para ser nobre ou herói. As condições teriam de ser totalmente instáveis para que surgisse uma situação como essa. Onde há guerras, onde há divisão de lealdades, onde há tentações às quais resistir, objetos de amor pelos quais lutar ou os quais defender — lá, obviamente, nobreza e heroísmo fazem algum sentido. Mas aqui não há guerras hoje. Tomam-se grandes cuidados para impedir que você ame alguém demais. Não existe essa coisa de lealdade dividida; você está tão condicionado que não pode evitar fazer o que deve fazer. E o que você deve fazer é tão prazeroso, tantos são os impulsos naturais aos quais se permite livre manifestação, que na verdade não há quaisquer tentações às quais resistir. E se alguma vez, por algum infeliz acaso, algo desagradável de algum modo acontecesse, bem, sempre temos soma [a droga] para você tirar umas férias dos fatos. E sempre tem soma para aplacar sua raiva, reconciliá-lo com seus inimigos, fazer com que seja paciente e estoico. No passado você só poderia realizar essas coisas fazendo um grande esforço e após anos de rigoroso treinamento moral. Agora, você engole dois ou três tabletes de meia grama, e pronto. Agora qualquer um pode ser virtuoso. Você pode levar pelo menos metade de sua moralidade num frasco. Cristianismo sem lágrimas — é isso que soma é.” “Mas as lágrimas são necessárias. Não se lembra do que disse Otelo? ‘Se após cada tempestade vêm tais calmarias, que soprem os ventos até terem despertado a morte.’ Há uma história que um desses velhos índios costumava nos contar, sobre a Garota de Mátsaki. O jovem que quisesse casar com ela teria de fazer a capina matinal em seu jardim. Parecia fácil; mas havia moscas e mosquitos, mágicos. A maioria dos jovens simplesmente não conseguia aguentar as mordidas e picadas. Mas aquele que conseguiu — conseguiu a garota.” “Encantador! Mas em países civilizados”, disse o Controlador, “você pode ter garotas sem capinar por elas; e não há quaisquer moscas ou mosquitos para picar você. Livramo-nos de todos eles séculos atrás.” O Selvagem assentiu, franzindo a testa. “Vocês se livraram deles. Sim, isso é típico de vocês. Livrando-se de tudo o que é desagradável em vez de aprender a suportá-lo. Saber se é mais nobre na mente suportar as pedradas e flechas da fortuna atroz ou tomar armas contra as vagas de aflições e, ao afrontá-las, dar-lhes fim… Mas vocês não fazem nenhum dos dois. Nem sofrer nem se opor. Vocês apenas aboliram os estilingues e as flechas. É fácil demais… O que vocês precisam”, continuou o Selvagem, “é de algo com lágrimas, para variar… Viver perigosamente não tem sua graça?” “Muita”, replicou o Controlador. “Homens e mulheres devem ter suas suprarrenais estimuladas de vez em quando… É uma das condições para uma saúde perfeita. É por isso que fizemos com que os tratamentos S.P.V. sejam compulsórios.” “S.P.V.?” “‘Substituto da Paixão Violenta.’ Uma vez por mês inundamos todo o sistema de adrenalina. É o exato equivalente fisiológico do medo e da raiva. Todos os efeitos tônicos de assassinar Desdêmona e ser assassinada por Otelo sem nenhuma das inconveniências.” “Mas eu gosto de inconveniências.” “Nós não”, disse o Controlador. “Preferimos fazer as coisas confortavelmente.” “Mas eu não quero conforto. Eu quero Deus, quero poesia, quero perigo real, quero liberdade. Quero bondade. Quero pecado.” “Na verdade”, disse o Controlador, “você está reivindicando o direito de ser infeliz.” “Tudo bem, então”, disse o Selvagem, desafiador. “Estou reivindicando o direito de ser infeliz.” “Sem falar no direito de ficar velho, feio e impotente; o direito de ter sífilis e câncer; o direito de ter muito pouco o que comer; o direito de ser horrível; o direito de viver em constante apreensão quanto ao que vai acontecer amanhã; o direito de pegar tifo; o direito de ser torturado por dores indizíveis de todo tipo.” Houve um longo silêncio. “Reivindico tudo isso”, disse o Selvagem afinal. Mustafá Mond deu de ombros. “Disponha”, disse ele. 

John, o Selvagem, retira-se para um deserto desabitado e vive lá como um eremita. Os anos que passou na reserva indígena recebendo lavagem cerebral sobre Shakespeare e religião o condicionaram a rejeitar todas as bênçãos da modernidade. Mas as palavras de um sujeito tão incomum e excitante espalham-se rapidamente, e as pessoas acorrem para vê-lo e registram tudo o que faz, e logo ele se torna uma celebridade. Enjoado até a alma com essa atenção indesejada, o Selvagem foge da matrix civilizada, não engolindo uma pílula vermelha, mas se enforcando.

Diferentemente dos criadores de Matrix e de O show de Truman, Huxley duvidava da possibilidade de fuga, porque questionava se haveria alguém disposto a fugir. Uma vez que seu cérebro e seu eu são parte da matrix, para fugir dela você tem de fugir de seu eu. No entanto, é uma possibilidade que vale a pena explorar. Escapar da definição estreita do eu pode bem se tornar uma habilidade para sobrevivência necessária no século XXI. 
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